Em muitos cursos de saúde, a lógica educacional historicamente privilegiou o domínio técnico: dominar procedimentos, seguir protocolos e replicar padrões. Essa ênfase vem de um legado que confere autoridade ao que é tangível e mensurável — uma técnica bem executada, um exame corretamente interpretado, um procedimento seguro. No entanto, na rotina de serviços, a complexidade vai além da técnica. O profissional encontra pacientes com histórias únicas, contextos sociais diferentes, demandas que não cabem em um checklist. E é ali, na interseção entre conhecimento e realidade, que a formação crítica se torna essencial.
Formação crítica não é oposição à técnica. Pelo contrário: é a capacidade de usar a técnica de maneira contextualizada, fundamentada em princípios éticos, em pensamento analítico e em uma visão ampla do sistema de saúde. Um estudo publicado na Medical Education destaca que a reflexão crítica está associada a melhores habilidades de tomada de decisão e resolução de problemas, além de uma maior capacidade de adaptação a situações inesperadas (Medical Education, 2019).
É uma metáfora útil: pense na formação técnica como as ferramentas de um artesão e na formação crítica como a habilidade de escolher a ferramenta certa para cada trabalho, e saber quando é preciso adaptá-la ou até descartá-la em favor de outra abordagem. Em tempos de protocolos em constante atualização e cenários clínicos variados, a simples posse de ferramentas (técnica) não garante um bom resultado — é a reflexão que as torna úteis.
A pandemia de COVID-19, por exemplo, expôs justamente essa necessidade. Protocolos mudaram com velocidade, evidências científicas evoluíram dia após dia, e profissionais que possuíam não apenas preparo técnico, mas também capacidade de julgamento crítico e adaptação, mostraram maior segurança em suas decisões. Em um levantamento conduzido por pesquisadores da Harvard Medical School, profissionais com maior habilidade para pensamento crítico demonstraram maior flexibilidade diante das mudanças e menor impacto de estresse relacionado à incerteza dos protocolos (Harvard Medical School, 2021).
O desafio educacional é, portanto, integrar a formação técnica com práticas que estimulem reflexão: discussões de casos complexos, aprendizagem baseada em problemas, feedback estruturado, e experiências que encorajem a autonomia intelectual. Isso implica uma mudança de paradigma: não formar apenas executores de procedimentos, mas formadores de juízo clínico, capazes de analisar, questionar e resolver.
Em um sistema de saúde que não para de evoluir, definir e implementar essa integração é uma necessidade estratégica. Preparar profissionais que saibam tanto o que fazer quanto por que e como fazer é um diferencial que impacta positivamente os serviços, os pacientes e a própria trajetória profissional daqueles que se dedicam a cuidar da saúde da população.


