Envelhecimento da população: um novo cenário e um desafio para a formação em saúde

O envelhecimento populacional não é apenas uma estatística: é uma realidade que já pulsa nas filas dos consultórios, nos corredores dos hospitais e na rotina dos serviços de atenção básica. No Brasil, estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2023, cerca de 14,7% da população tinha 60 anos ou mais, número que deve ultrapassar 20% em 2038 — ou seja, em pouco mais de uma década, um em cada cinco brasileiros será idoso (IBGE, 2023). Globalmente, projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que até 2050 haverá mais de 2 bilhões de pessoas com 60 anos ou mais, superando o número de jovens — o que reconfigura todo o desenho dos sistemas de saúde (WHO, 2021).

Esse fenômeno demográfico traz consigo uma complexidade clínica e social maior: doenças crônicas, polimedicação, fragilidade funcional, necessidades de cuidado prolongado e desafios de saúde mental — demandas que não se resolvem apenas com protocolos técnicos, mas também com habilidades de comunicação, trabalho em equipe e gestão integrada do cuidado.

Desse modo, a formação em saúde, tal como tradicionalmente concebida, encontra-se diante de uma encruzilhada: continuar centrada no modelo biomédico clássico, com foco exclusivo na doença, ou se mover para um paradigma que considere o paciente em sua totalidade, incluindo contexto social, funcional e emocional. Isso exige uma formação que vá além das disciplinas isoladas, abraçando currículos integrados, estágios supervisionados em contextos reais e aprendizagem baseada em problemas complexos, como fragilidade do idoso e cuidado longitudinal.

Instituições educacionais têm papel decisivo nesse processo. Elas precisam antecipar tendências e preparar profissionais que saibam reconhecer, por exemplo, os sinais precoces de declínio funcional, manejar com segurança a polifarmácia, articular redes de cuidado e dialogar efetivamente com famílias e cuidadores. A própria OMS enfatiza que sistemas de saúde voltados à população idosa devem ser “integrados, centrados na pessoa e orientados por equipes aprendentes” (WHO, 2021), o que implica repensar não apenas o conteúdo, mas também a forma de ensinar.

O envelhecimento populacional, em última análise, é um espelho, reflete o sucesso das políticas de saúde e de saneamento, ao mesmo tempo que revela lacunas na educação profissional. Formar profissionais capazes de atuar com competência e humanidade nesse cenário é uma responsabilidade inadiável: as próximas décadas demandarão não apenas  um número maior de profissionais, mas profissionais  mais bem preparados para cuidar de uma sociedade que vive mais e precisa de cuidados mais qualificados.

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